Renata Sumar
Conheça a trajetória da yogini desde os 3 anos de idade
21/12/2007
eYoga: São 20 anos de Yoga. Como você começou a praticar?
Na verdade, são 34 anos
de prática. Comecei quando tinha apenas 3 anos, inspirada pela minha mãe, que já
praticava há alguns anos e eu a imitava. Primeiro praticava só em casa, depois ela
começou a levar-me para a escola onde dava aulas e eu também participava com ela
de cursos e congressos. Faz 24 anos que ensino Yoga.
eY: Conte-nos um pouco sobre
sua trajetória como professora de Yoga.
Aos 11 anos, resolvi que queria fazer a minha
primeira formação, mas tive um acidente com a mão esquerda e só pude prestar exames
um ano depois. Assim, recebi, na UFMG (em um setor de extensão do Curso de Educação
Física) o meu primeiro certificado de professora de Yoga. Nos dois anos seguintes,
repeti o curso. Como sempre gostei muito de crianças, fiz o meu primeiro curso de
Especialização em Yoga com Especiais e comecei a dar aulas. Mas, como toda adolescente,
tive o meu período de rebeldia e dos 15 aos 18 anos me afastei da prática de Hatha.
Quanto eu tinha 18 anos, minha mãe decidiu fazer sua primeira viagem para a Índia
e me perguntou se ficaria tomando conta da escola. Aceitei. De lá para cá, nunca
mais parei de dar aulas, e amo o que faço. Em 1994 me formei em fonoaudiologia, para
complementar o trabalho que já vinha desenvolvendo há anos com os especiais, e foi
muito gratificante. . Fiz vários cursos com a minha mãe, até que ela resolveu me
colocar como assistente. Em 1998 ministrei o meu primeiro curso sozinha e desde então
venho dando formação todos os anos.
Passei um bom tempo em Yogaville, Virgínia, nos
(EUA), onde aprendi o método que desenvolvo de Hatha Yoga Integral do Swami Satchidananda.
Viajava duas a três vezes por ano para lá e passava duas semanas. Aprendi muito sobre
o Yoga Integral, que abraça seis das principais linhas de Yoga: Hatha, Raja, Jnana,
Japa, Bhakti e Karma Yoga. Em 1997, numa de minhas visitas aos Estados Unidos, conheci
o Ashtanga Yoga em uma academia. Tenho de confessar que a primeira experiência não
foi boa. Mas tentei novamente em 1998, num workshop de Power Yoga com Brian Kest.
Sempre gostei muito de asanas e sou flexível, então fui e adorei! Sempre fui apaixonada
por anatomia, então comecei a estudar mais a fundo e perceber em meu próprio corpo
e no dos meus alunos onde estava este equilíbrio, ou o desequilíbrio.
Conheci o Ahstanga
Vinyasa Yoga em um vídeo do David Swenson que minha mãe trouxe dos Estados Unidos.
Achei muito legal. Decidimos ir para a Índia em 2000 e conhecer o criador do método
de Ashtanga Yoga, Sri K. Pattabhi Jois. Entretanto, não foi possível realizar aulas
no instituto, pois estava em reformas. Então fui indicada a praticar com Sri Saraswathi,
na casa dos Jois. Fui e gostei muito. Fazíamos prática bem cedinho e depois ela nos
oferecia café e conversávamos sobre Yoga e a tradição hindu. Antes de Mysore, fui
visitar o ashram do meu guru, Swami Satchidananda. Depois de Mysore fomos para outros
lugares e depois para Rishikesh, onde fiz aulas de Iyengar com Rudra. Ele foi discípulo
de Swami Sivananda por dez anos e, sendo o guru do meu guru, fiquei muito feliz em
poder conhecê-lo. As práticas eram intensas, e antes havia meditação, que eu adorava
fazer. À tarde, práticas intensas de pranayamas.
A paixão pela anatomia se retrata
em minha prática de asanas e na maneira como ensino esta parte do Yoga para os meus
alunos. O curso de fonoaudiologia ajudou bastante também. Conheço bastante da filosofia
do Rolfing, além de já ter sido "rolfada", e tudo isso se traduz em ferramentas que
utilizo em meus cursos de anatomia e asana. Venho acompanhando o trabalho de Yoga
com Especiais com a Sivakami nos últimos 25 anos. Não sei dizer de quantos cursos
já participei. Resolvi fazer o curso de filosofia do Yoga com Georg Feuerstein, que
comecei em 2002 — foram 800 horas de curso. Também venho estudando vedanta com a
Glória Arieira, além de budismo — já realizei um retiro de meditação Vipassana.
eY:
Está provada a eficiência do Yoga na área de Especiais. Como é esse trabalho?
Este
trabalho surgiu após a minha mãe, Sivakami Sonia Sumar, dar à luz sua segunda filha,
Roberta, em 1972. Não havia tantos tratamentos como hoje e ser diagnosticada como
mongolóide (termo usado na época para portadores da Síndrome de Down) era sinônimo
de ter um filho completamente dependente e incapaz. Mas minha mãe não acreditou neste
diagnóstico e resolveu lutar para que a filha fosse feliz. E como o Yoga fazia tão
bem a Sivakami, ela pensou: “Por que não faria bem à minha filha?” Então começou,
quando minha irmã ainda tinha meses de vida, o trabalho com ela. A Roberta se desenvolveu
muito, aprendeu a andar, ler, escrever, era independente e muito feliz. Isso chamou
a atenção de diretores de escolas, que convidaram a Sivakami a trabalhar com outras
crianças, indicando-a não só a crianças portadoras da Síndrome de Down, mas a qualquer
tipo de dificuldade que a criança pudesse apresentar. Nesse período, realizamos com
o bebê movimentos de preparação do corpo da criança para os asanas, que são introduzidos
de maneira suave e segura. Não se trata de massagem, mas de uma preparação para a
prática em si. Realizamos relaxamento, e o trabalho de respiração muitas vezes ainda
não é necessário, uma vez que a criança costuma respirar corretamente nessa época.
À medida que o bebê vai se desenvolvendo e começa e responder ao trabalho, ela começa
a colaborar e ajuda a colocar o corpo na posição. Passamos então ao estágio seguinte,
o indutivo. Há uma pequena colaboração da criança para realizar os movimentos e alguns
asanas já são introduzidos. À medida que vai ficando mais confiante e colaborando
mais, passa-se ao estágio interativo — em que apenas ajudamos um pouco e a criança
já sabe o que vai fazer e termina a posição. Isso acontece até o momento em que a
criança é capaz de realizar a posição quase sozinha. Aqui, damos o nome da posição
e a criança faz, ou fazemos primeiro e ela imita. O trabalho com mantra e respiração
é introduzido gradativamente e as crianças gostam muito. O relaxamento está sempre
presente e é a última parte da aula.
Quando a criança já está bem segura, ela é passada
gradativamente para um grupo no qual vai aprender a trabalhar com os colegas. A aula
com as crianças é mais lúdica e é dada em uma ordem diferente da dos adultos: mantra,
exercícios visuais, pranayama, asana e relaxamento. Damos os pranayamas antes, pois
notamos que isso relaxa as crianças e as deixam mais focadas na prática dos asanas.
eY:
Como é o curso de formação para crianças especiais?
O curso busca mostrar a profissionais
da área de saúde, professores de Yoga e pais de crianças especiais, passo a passo,
como realizar o trabalho desde o recém-nascido até o adolescente. É um curso teórico
e prático. Os participantes trabalharão primeiro uns com os outros, em uma boneca,
e tentarão entender bem a técnica antes de realizar o trabalho com as crianças. A
Yoga com especiais é como a prática de Yoga para qualquer pessoa, é para a vida toda.
Esta é a razão pela qual incentivamos os pais, ou pelo menos um deles, a fazer aulas
regulares de Yoga também, para que possam não só entender o processo, mas porque
eles são a chave de conexão entre o professor e a criança. Muitas vezes, o que é
mostrado em aula a criança não faz na hora, mas fará em casa e então os pais saberão
identificar. O curso tem duração de uma semana (quando é intensivo) e cada participante
terá a oportunidade de observar e trabalhar com crianças ao vivo. Há uma apostila
bem ilustrada e detalhada. O certificado é enviado pelo Yoga for the Special Child,
com sede nos Estados Unidos e reconhecido pelo Yoga Alliance.
eY: Quais são as recomendações
para quem está começando a trilhar o caminho do Yoga?
Para quem está começando a
prática, sugiro que procure pessoas que praticam Yoga e busque saber um pouco mais
sobre o tipo de Yoga que adotam. Existem muitos métodos, todos têm seus benefícios
e serão recomendados para diferentes tipos de pessoas. É importante que haja empatia
entre o aluno e o professor, o local, os colegas, pois tudo isso será essencial para
que o trabalho funcione. É importante que tudo se encaixe, que o aluno se sinta bem,
que confie no professor para que, juntos, possam trilhar o caminho do Yoga. Outra
dica: não aceite o que o professor falar se não fizer sentido para você. Questione,
pergunte, tente entender, procure vivenciar a prática o mais possível, para que obtenha
os resultados que está buscando.
eY: Como é a sua prática diária? Quais são os seus
mestres?
Minha prática diária envolve um puja matinal — em que uso incenso, velas,
flores e agradeço por mais um dia; mantras, asanas, pranayama e meditação. Atualmente,
grávida de oito meses, preciso modificar bastante a prática de asanas e pranayama
para ajustá-la à gravidez. Mas o resto continua o mesmo. É um bom momento de conexão
com o meu filho. Antes de engravidar, minha prática de asanas era mais intensa. Pratico
Hatha Yoga Integral. Já tive meu período de intensas práticas de Ashtanga Vinyasa
Yoga. Prefiro praticar pela manhã, bem cedinho, para que possa terminar antes das
6 horas e estar pronta para o meu outro filho, Noah, de 5 anos, que geralmente acorda
nesse horário, e começo a minha rotina diária para levá-lo para escola. Já fui muito
severa comigo mesma em relação ao tempo de prática e, até antes do Noah nascer, conseguia
seguir essa rotina (das 4 às 6 horas da manhã), mas com criança tudo muda. Hoje,
se acordo às 4, pratico por duas horas. Se acordo às 5, pratico por uma hora. Meu
mestre é Sri Swami Satchidananda, Yoga Integral. Minha mãe, Sonia Sumar, foi minha
primeira mestra (a mãe é a primeira mestra de seus filhos) e é minha inspiração diária.
Considero meus professores de Ashtanga Saraswathi Rangaswami e David Swenson.
eY:
O que faz para aperfeiçoar a sua prática? Viaja, faz cursos, lê? Cite as obras essenciais
para você e os fatos mais marcantes na sua trajetória de yogini.
Procuro praticar.
Vivenciar o Yoga, não só em cima do mat, mas no meu dia-a-dia. Leio muito e estou
sempre buscando algo novo para aprender. Busco aprender mais em cursos, workshops,
congressos e cursos a distância. Adoro viajar, mas hoje, com família, fica um pouco
mais difícil. Sempre que estou nos Estados Unidos procuro conciliar a visita à família
com cursos ou workshops, ou pelo menos a visita a um templo ou escola de Yoga. Livros
de cabeceira são: Os Sutras do Yoga de Patanjali, com comentários de Swami Satchidananda;
The Living Gita, com comentários de Sri Swami Satchidananda; O Valor dos Valores,
de Swami Dayananda; e Asana, Pranayama, Mudra e Bandha, de Swami Satyananda. Fatos
marcantes na minha trajetória de yogini foram minha primeira graduação, aos 12 anos,
meu encontro com Swami Satchidananda e a oportunidade de visitas a Yogaville, onde
pude conhecer e viver o Yoga Integral. O recebimento do meu mantra pessoal, dado
pelo meu mestre em 1995, foi especial. Minha viagem à Índia, onde conheci Sri Pattabhi
Jois, Sarath, Saraswathi e Manju. Também na Índia tive o prazer de conhecer Sri Sri
Ravi Shankar, no aniversário de Satchidananda — nunca vi tantas pétalas de flores
juntas serem oferecidas aos dois e depois a todos nós.
eY: O que o Yoga lhe ensina
no dia-a-dia? Qual é a parte do Yoga de que gosta mais?
O Yoga é parte de minha vida
desde que me entendo como gente. Minha mãe sempre nos mostrou os dois lados das coisas,
e não me falava como agir, mas o que poderia acontecer se fizesse assim ou assado.
A decisão estava em minhas mãos, mas os meus atos teriam conseqüências e eu deveria
escolhê-los bem, pois eu teria de lidar com as conseqüências da mesma maneira. Então,
desde muito cedo tive contato com muito da filosofia do Yoga. A aplicação dos Yamas
em minha vida diária, a práticas dos Nyamas. Isso sempre fez parte de minha vida
e é como educo o meu filho e o que tentarei passar também para o segundo, que está
a caminho (nasce em fevereiro).
O Yoga me ajudou muito no trabalho do desapego, a
aceitar a dor, a entender o que está por trás do sofrimento e a sentir a felicidade
e a paz dentro de mim. A perda da minha irmã, quando eu tinha 16 anos, foi um momento
de muita reflexão sobre tudo isso. A parte de que sempre gostei muito são os asanas,
no início pelo fascínio em praticá-los, hoje por senti-los como o caminho para atingir
níveis mais avançados de prática, percebendo melhor como o meu corpo lida com a facilidade
e a dificuldade, e aprendendo a manter o equilíbrio entre força e flexibilidade,
esforço e entrega, inspiração e expiração. Outra parte que sempre desenvolvi muito,
desde bem pequena, foi a dos mantras e pujas. Adoro! O Yoga me ensina a ser paciente,
ou melhor, a ter compaixão por mim mesma e a não ser tão exigente, tão perfeccionista.
A entender que posso errar e que terei oportunidades para corrigir o meu erro e fazer
melhor. E a entender e aceitar as pessoas do jeito que elas são e não do jeito que
eu gostaria que elas fossem. Colocar-me na situação do outro e ter compaixão e amor
por tudo e por todos.
eY: Que mensagem você deixa para os praticantes que estão se
iniciando agora?
Que Yoga não é uma terapia, em que você tem alta após um tempo.
Que Yoga é uma prática para a vida toda e não há pressa. Faça de sua prática de Yoga
algo que lhe dê a oportunidade de viver o presente. Inicialmente será a prática da
modalidade de Yoga que você escolher, mas depois vai aos poucos se estendendo para
vários momentos do seu dia-a-dia, especialmente aqueles em que você se agitaria e
correria, ficaria estressado e ainda assim chegaria atrasado, vamos dizer, ao trabalho.
Mesmo que o tempo pareça não estar a seu favor, viva cada minuto e faça o que tem
de ser feito. Quando em sala de aula, procure estar consigo mesmo — é tão difícil
um momento só para a gente que não precisamos fazer nada além de estarmos presentes.
Então, aproveite. Dedique-se intensamente a este momento, mas sem expectativas, para
não se perder no orgulho de ter conseguido ou na frustração de ainda não tê-lo feito
(pois assim você não estará concentrado na prática, mas no resultado dela). Faça
o seu melhor e fique feliz, não importa o resultado.
Renata Sumar dirige o Jai Vida!
Yoga Integral em Belo Horizonte (MG) e trabalha com crianças especiais.
www.jaivida.com
Renata e Noah out/07