Mantras para verbalizar os nomes de Deus

O músico Krishna Das percorre o mundo ensinando as pessoas a
se reconectarem com o som que as liga à divindade.
ANA ELIZABETH DINIZ / ESPECIAL PARA O TEMPO
Ele tem um jeito único de pontuar sua passagem por esse
mundo. Krishna Das nasceu em Nova York e diz não poder precisar
a sua idade, de tão velho é o seu espírito.
Ele optou por passar por essa vida, cantando, ou melhor,
entoando mantras, aqueles sons mágicos e enigimáticos repetidos
e que provocam uma sensação de transcendência. Um tipo de música
que rapidamente nos leva para outras esferas, sejam elas quais
forem.
Há dez anos, Krishna Das percorre o mundo entoando
mantras, como forma de aclamar a mente e abrir o coração das
pessoas.
"Os mantras são formas de som que representam os lugares
mais profundos do coração. Através da repetição verbalizamos
nomes divinos que, na verdade, são do nosso próprio ser. Quando
isso acontece internamente gera uma transformação do mundo
externo e faz com que possamos nos libertar das forças negativas
e das causas do sofrimento em nossa vida", define o músico.
Sua busca espiritual começou nos anos 60, a exemplo de
outros jovens americanos insatisfeitos com o padrão ocidental de
vida.
Krishna Das foi especialmente atraído para as práticas de
bhakti ioga, o caminho do amor devocional, e viajou para a
Índia, onde conheceu seu guru Maharaj-ji Neen Karoli Baba, com
quem permaneceu durante três anos.
Foi aí que ele inicia sua prática de mantras e kirtans,
que é o canto dos diferentes nomes sagrados de Deus. Ele viveu
em florestas e locais sagrados onde conheceu e absorveu a
sabedoria de mestres de diferentes tradições espirituais. Hoje,
Krishna Das é uma referência mundial em mantras da tradição
indiana.
O TEMPO " Como músico, qual o motivo de sua opção
pelos mantras"
Krishna Das " Percebi que existia amor verdadeiro no
mundo e que esse amor era Deus e que tudo e todos estavam
incluídos nisso, até eu mesmo. No início isso doeu, foi
desconfortável aceitar que eu não me amava.
Esse é um processo prolongado, deixar que esse amor possa ser
absorvido no meu próprio coração. Lembrei-me de como meu guru
Maharaj-ji Neen Karoli Baba era humano, espontâneo, sem
artifícios e solto. Ele lidava com todo tipo de pessoas, ricas e
pobres.
Ele era um exemplo e me mostrou como viver nesse mundo
servindo as pessoas o tempo todo. Ele não tinha bens, nem conta
bancária, apenas um cobertor e um dhoti (pano usado para cobrir
os órgãos sexuais).
Qual a missão do homem nessa existência"
Tornar-se um bom e aprender a tratar o seu próximo como gostaria
de ser tratado. Não se trata de experiências pessoais,
extraordinárias, ou de desenvolver um eu mais brilhante, maior.
Trata-se de vencer o medo, a ganância e o egoísmo. De ver que
somos uma só família, na verdade um grande ser.
Porque o ser humano sofre tanto"
Porque acreditamos que somos separados do outro e nessa condição
temos que segurar a felicidade, o amor por nós mesmos. Daí surge
o medo de que outras pessoas possam tirar isso de nós. Acabamos
nos protegendo e isso cria mais distância entre nós e os outros.
Passamos grande parte de nossas vidas usando nossa energia
para proteger o nosso espaço pequenininho ao invés de retirarmos
as causas do nosso medo, o egoísmo. Se quisermos mais amor em
nossa vida podemos experimentar ser mais amorosos.
Como invocar os nomes de Deus"
O significado do mantra não está nas palavras. Através dele
pronunciamos os nomes de Deus no nível mais profundo. Os mantras
são os nossos verdadeiros nomes.
Quando estamos cantando, contemplamos a nossa verdadeira
natureza em nossos corações. Eu aceito o efeito que os mantras
têm dentro de nós. Eles devem ser sentidos e experienciados.
O que significa o canto kirtan"
Ele faz parte do caminho da ioga devocional. Quando vemos a
beleza do nosso próprio ser, estamos vendo a beleza do ser que é
o supremo do qual todos somos uma parte.
E quando nos voltamos em direção a esse ser supremo, o amor é
uma reação natural do coração. Deus ou guru é um oceano infinito
de amor, verdade e presença. Primeiro, podemos ouvir o ruído
distante do quebrar das ondas do oceano, e então somos atraídos
pelo som.
Ao nos aproximarmos, podemos sentir o cheiro do ar do oceano
e experimentar a umidade doce. Quando alcançamos a praia e vemos
o oceano pela primeira vez, somos transfixados pela vastidão e
pela beleza. Corremos, mergulhamos e aproveitamos a liberdade
que vem desse êxtase.
Finalmente, nos misturamos ao oceano de amor e de alguma
forma nos encontramos de volta na praia, retornando a nós mesmos
para que possamos compartilhar a experiência com as outras
pessoas. Aqueles que voltaram nos deram esses nomes de Deus.
Esses nomes são o som do surfe nesse oceano de amor. Eles têm
o poder de nos ajudar a encontrar nosso caminho de volta a esse
oceano. Não temos que criar nada. Não temos que fabricar
qualquer emoção ou sentimento. Não podemos fazêlo acontecer. Ele
já é o que é.
Tudo o que temos a fazer é lembrar. Todos têm seu próprio
caminho até essa praia, até o oceano, mas todos acabam no mesmo
lugar.
Só existe um ser supremo. Satsang, palavra que significa
congregação, é um ritual em que as pessoas se reúnem para
lembrarem, para se voltarem para dentro e descobrirem seu
próprio caminho interior até o Supremo.
Quando nos reunimos para cantar assim, estamos ajudando uns
aos outros a descobrirem seu próprio caminho. Devemos viajar
sozinhos por esse caminho porque cada um de nós é o nosso
próprio caminho.
Todos esses caminhos vagueiam por seu próprio caminho, mas em
verdade estamos todos viajando juntos e até o último de nós
chegar, todos continuaremos viajando.
O senhor poderia nos ensinar um mantra"
"E quando ele me vê em tudo e vê tudo em mim,
Eu nunca o deixo e ele nunca me deixa.
E ele, que nessa unicidade do amor
Me ama em tudo o que ele vê,
Em qualquer lugar que esse homem viva,
Em verdade, ele vive em mim..."
("Canção do Divino Mestre ou Sublime Canção", Bhagavad Gita,
VI:30,31)
Publicado em: 12/09/2006