Escolhendo ao que ouvir

Swami Ashokananda

             Gostaria de convidar vocês a realizarem seu yoga sadhana aprendendo um método de estar consciente e ouvir com atenção.

            Estamos o tempo todo tendo estimulações auditivas, ouvindo alguma coisa, que podemos não estar conscientes e nem ouvindo com atenção. Durante nossa prática de yoga, esta “alguma coisa” que ouvimos terá um grande impacto na qualidade e resultado de nosso sádhana. Se pensamos que nossa prática é uma exploração a um novo e desconhecido terreno, nós devemos utilizar placas para nos orientarmos. As “placas” podem ter duas origens: mensagens vindas de origens interna e mensagens vinda de origem externa. Cada uma delas vai nos levar a lugares completamente diferentes, dependendo de qual mensagem escolhermos para “ler” e de como nos orientamos em relação a elas.

 

O que é uma orientação externa?

Considere os cinco itens abaixo como formas de orientação externa:

1-      outras pessoas: esta forma de orientação externa acontece quando tentamos imitar o outro. Isto acontece, por exemplo, quando um aluno vê o da frente com uma perna super alta no salabhasana e ele luta contra si mesmo para realizar da mesma forma ou “melhor”. Ou ele tenta fazer com que o asana dele pareça com o do professor ou o do livro que leu.

2-      medição espacial : um exemplo desta forma de orientação externa é quando você fica medindo 10 cm de distância entre o seu peito e a sua coxa quando em paschimotanasana e sentir que a sua meta é remover esta distância. (alguns utilizam até um relógio!)

3-      tempo: aqui, quanto tempo você sustenta um asana, ou o quanto você descansa entre um asana e o outro é sempre predeterminada por minutos ou segundos.

4-      ouvindo os ruídos fora: nossa vida é cheia, certo? Então seria ótimo se pudéssemos ouvir as notícias ou o Jô Soares durante a nossa prática. Eu não estou dizendo que você não deva fazer isso, mas é bom reconhecer, que se este é o tipo de “placa” que vamos utilizar para orientar a nossa jornada, nós iremos acabar em um destino que reflete a nossa escolha. E música? Bom esta é uma escolha mais pessoal. Existem pessoas que acham que a música pode distrair (como eu) e existem pessoas que acham que ajuda a levar a consciência para dentro.

5-      Pensamentos: uma vez que a vida é tão cheia de coisas para fazer, durante a prática de ásanas parece ser um bom momento para planejar algumas coisas para fazer durante o dia ou processar algumas emoções que ainda não tivemos tempo de lidar com. Ou, pode acontecer que, em algum ponto da nossa prática nós viajemos em devaneios, totalmente inconscientes do momento presente e da posição incomum que colocamos o nosso corpo. Esta pode ser considerada uma “interna” externa orientação, uma vez que os pensamentos estão se movendo entre nossa consciência e a experiência em frente a nós.

 

Você encontrou algum destes aspectos na sua prática? Algum em particular?

Eu acredito ser seguro dizer que, em geral, uma orientação externa alimenta uma forma de prática competitiva, onde você deseja atingir proezas. E porque a nossa intenção está voltada para fora, há um grande risco de machucarmo-nos.

 

O que é uma orientação interna?

Na orientação interna, freqüentemente o tipo de comunicação que acontece é a mente falando para o corpo o que ele deve fazer – bem possível, sem falar que  é razoável, aconselhável, possível. Nessa orientação, nós estamos conscientes de todos os corpos (koshas) estão se comunicando, provavelmente através de mensagens não verbais e sensações. A nossa consciência ouve com cuidado, respeito, não-julgamento e atenção. Isto parece muito com meditação, você não acha? Eu tenho percebido que a forma formal de sentar para meditar desenvolve um longo caminho para aumentar esta orientação interna em minha prática de hatha yoga, e a orientação interna enquanto pratico asanas é uma ferramenta que me ajuda a ir mais fundo em minha prática de meditação sentada.

Quando conseguimos realizar a prática desta forma, desenvolvemos a capacidade de ficar atento e ouvir os outros com paciência e carinho. Se a minha mente consegue parar de direcionar o meu corpo todo o tempo de minha pratica de asanas, então ela consegue parar de ficar querendo sempre criar estratégias, procurar pontos fracos, remoendo coisas que já aconteceram, ou viajando enquanto “ouvindo” a pessoa em frente a mim.

 

Algumas das áreas que podemos direcionar nossa “consciência receptiva auditiva”:

1-      No nível físico: estamos ouvindo a sinais de desconforto? Você tem noção do seu limite fisiológico? Você consegue distinguir dor e desconforto quando trabalha o seu corpo de uma forma nova e que não tem costume de trabalhar?  Você está praticando Ahimsa? Como está o fluxo da minha respiração? O que ela está me dizendo?

2-      No nível prânico: o meu esforço neste asana está revigorando, acordando e construindo minha energia ou está dissipando e depauperando a minha energia? Consigo sentir qualidade e direção no fluxo do meu prana? Posso usar a energia da terra para ajudar-me ainda mais? Posso conectar a “minha” energia com a energia em volta de mim para diminuir a ilusão que estou “encaixado” neste corpo?

3-      No nível mental: onde estou neste momento? O meu corpo está em casa? Estou gostando disso? Se não, porque não? Qual é a minha motivação para fazer este asana? Estou buscando fazer de meu corpo um bom instrumento para o ego ou para o espírito? Estou praticando satya, respeitando a verdade de quem sou eu e onde eu estou? Estou praticando yoga e usando asanas como uma forma de descobrir mais sobre mim mesmo ou estou sacrificando esta verdade para atingir alguma meta externa?

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